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O que virá depois da crise?

Solidão! Ah, que tédio! Recolhimento. Ah, que desafio.

Por JACKSON SILVA em 20/03/2020 às 15:43:29

Solidão! Ah, que tédio! Recolhimento. Ah, que desafio.

Ficar em quarentena é para mexer com todos os entos: pensamentos, sentimentos, discernimentos,desdobramentos acontecimentos. Um recolhimento forçado. Etc.

Que sinal estamos recebendo para que fiquemos mais quietos? Observar o nosso interior? O comportamento do outro? Modificar a convivência em tempos de união, quando unir-se é um problema?

Dá-lhe álcool gel na limpeza do corpo. Mas, e a alma? Arrumar a casa-moradia e faxinar a casa-coração. O uso do repouso é também para se movimentar.

Limpar gavetas, trocar os móveis de lugar, espanar os livros e lê-los, aprender como trabalhar em home office, manter-se produtivo. Dar sentido àquela velha desculpa do "não tenho tempo".

A imaginação ajudará. O ócio faz isso conosco. Deixe que ele aconteça. Quanto mais horas temos, mais poderemos nos reinventar. Nada de fazer hora. Pode até não fazer nada. Afinal, se o corpo pede estagnação, descanse também. Qualquer ação gerará reação.

E o quintal de folhas? As plantas sem adubo? As caixas escondidas no maleiro? O que está parado, esperando atenção?

As roupas do inverno de 1980 que podem ser usadas nesta nova estação? Dá para sacudi-las no sol? Mas, cuidado para não espirrar com o cheiro da naftalina e isso gerar confusão com os vizinhos...

Sabe aquela receita marcada em tantos livros parados na prateleira? Receita da avó, da obra da Dona Benta, copiada do programa da Ana Maria Braga, das dicas do Masterchef... Vamos usar o gás do fogão para experimentar os sabores sonhados?

E a promessa de conexão com o amigo esquecido? A lista de filmes favoritados nas plataformas de streaming? Que tal telefonar para os tios que moram sozinhos, para dar um alento? Durma se puder. Relaxe. Medite.

Olhando pela janela, tenho ouvido o silêncio. Em plena quarta, no horário do almoço, senti que era tarde de domingo. Nem os pássaros assobiavam. O papagaio da vizinha não gritava: ôôôô vóóóóóóó... A cadela Bombom estava quieta. Seus donos estariam em casa, pensei. Ela só late quando está só.

Ouvir o silêncio é interessante. Coloca-me em um estado alterado. Parece que fico mais atento a ruídos distantes. Sinto o sussurro do vento, o talher que cai no apartamento de cima, a risada da vizinha que nunca aparece na varanda, o namoro das aventuras vespertinas.

Ouço meu coração. O pulsar das ideias e as emoções afloradas por causa da solitude. Propositalmente, fomos chamados a esse despertar. Ainda estou buscando explicações, acolhendo com afeto aquilo que virá. E me pergunto, diariamente: quem será você depois que essa crise acabar?

Juliano Azevedo

Jornalista, Professor, Terapeuta Transpessoal.

Mestre em Estudos Culturais Contemporâneos

www.blogdojuliano.com.br

E-mail: [email protected] / Instagram: @julianoazevedo

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