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ESFREGANDO AS MEMÓRIAS

Do escritório tenho entrado em casas que, talvez, jamais iria. E sou grato pelo convite daqueles que me recebem com carinho.

Por Redação JKR Notícias em 26/04/2020 às 13:54:58

FOTO: JULIANO AZEVEDO

Estou me sentindo o Gênio do Alladin preso na lâmpada. Passando os dias em casa, quieto, marcando no calendário os momentos que tenho vivido... Quase escrevendo na parede os pauzinhos que levam rumo à liberdade, só para me sentir em um cenário de filme. Muitas vezes, acredito que estamos numa velocidade lenta. Em outras, que tudo está muito veloz. O trabalho continua. Reformulado, (re) aprendendo a ser professor por meio da tela do computador. As aulas virtuais me conectam ao mundo exterior, aos alunos, aos aprendizes, aos clientes terapêuticos. Do escritório tenho entrado em casas que, talvez, jamais iria. E sou grato pelo convite daqueles que me recebem com carinho.

Estou esperando que alguém encontre o objeto mágico para me libertar. Esse é o meu desejo imediato. Nem preciso dos outros dois. Desejo a liberdade do ir e vir, pois estou com saudade de sentar na praça, de tomar sorvete, de conversar amenidades no café, de comer bolo e sanduíche de trailer. Saudade de pegar carona, o ônibus, e encontrar-me em Bom Despacho, Vitória, São Paulo, Rio de Janeiro, Teresina, nas estradas brasileiras. Fazendo as contas, faltam seis Estados para carimbar as passagens. O Norte do Brasil que me aguarde, pois em breve irei vivenciá-lo, tomando tacacá, para dançar, curtir e ficar de boa. Bolo de macaxeira, açaí com tapioca, moqueca de pirarucu.

Nessa viagem gastronômica, as lembranças em flashback me mostram o quanto faz falta a culinária da experiência: carne de onça em Curitiba, cajuína em Barra Grande, churrasco em Campo Grande, o galeto com arroz e brócolis dos cariocas, Guaraná Jesus e camarão pitú no Maranhão, tudo que se come no Rio Grande do Norte, com camarão, claro. Moqueca capixaba da Felicíssima, arroz doce da Tia Angélica, bombom de morango da Tia Maria, bolo de tapioca da Silvana, caramelo da Tia Guida, iogurte do Vinícius, feijoada da minha mãe – que também servirá no mesmo encontro mingau de fubá, salada marroquina, galopé, macarronada e um suco extravagante de cor exótica.

(Gênio retire o que eu disse sobre querer só um desejo. Escolho ter uma piscina cheia de cerejas frescas e uma cachoeira de suco de maçã da Alemanha. Pode entregar por delivery, por favor.)

Vontade de estar com a família, com os amigos. Saudade do museu, da praia, de comida japonesa. Dos abraços apertados que distribuo aos afetos da alma. Vontade de estar em um avião, voando por cima dos mares, para acrescentar léguas às viagens pelo mundo. Com a ajuda dos livros e das séries televisivas, tenho me transportado de alguma maneira além da imaginação. Conhecendo personagens que retratam histórias comuns à minha própria existência.

Olho ao redor para visualizar o meu canto, o local que tenho ficado nas últimas semanas. Mesa, computador, sofá, cadeira, almoçadas, estantes. Na parede, um quadro com a Matriz de Nossa Senhora de Bom Despacho; na prateleira, um aparelho de som que está mudo há vários meses. Livros, muitos, de todos os estilos, colorindo minha "lâmpada" ficcional. Eles ficam estimulando os pensamentos, provocando sonhos, compartilhando conhecimentos. Vou consumindo por osmose aqueles que ainda não dedilhei as páginas. Sigo pensando neste recolhimento que "estou isolado, mas não estou só". Tenho a mim e aqueles que amo. Luz e paz.

Juliano Azevedo

Jornalista, Professor, Terapeuta Transpessoal.
Mestre em Estudos Culturais Contemporâneos

E-mail: [email protected] / Instagram: @julianoazevedo

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